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:. Crônicas

Separação moderna
Por McLeod

Ah...cheguei em casa ás 18h e 15 minutos. Após um dia de labuta finalmente posso descansar.
Meu uísque favorito....á minha espera sobre a mesa do bar. Um copo com duas pedras de gelo e uma boa dose vão me ajudar a relaxar. Após o primeiro gole percebo que o uísque me recebe em casa melhor do que ninguém.
O caminho pela casa até meu escritório me lembra no quanto foi difícil a separação. Nesta hora ela estaria de abraçando e me fazendo lembrar de quanto um casamento pode ser agradável. Mas nem tudo é um mar de rosas...”me trocou por um computador” ela dizia enquanto arrancava suas roupas do guarda-roupa.
Eis meu algoz...o motivo do caos. Em meu escritório tudo se encontra no mesmo lugar bagunçado de sempre, afinal, ela é quem me lembrava de colocar no lugar certo as minhas revistas, os meus charutos e a infinidade de papéis espalhados que eu teimo e chamar de “documentos importantes”.
Enquanto ligo o computador me lembro de uma reportagem que li hoje cedo em uma revista que diz que 80 porcento dos documentos que guardamos não tem utilidade. Se a autora da reportagem pagasse as minhas contas ela não diria isso. Me permito um sorriso...
Ah...finalmente. A conexão á internet é extremamente lenta...preciso me lembrar de adquirir um novo equipamento em breve.
Uma breve navegação...vamos ver o que há de novo no mundo...será que aconteceu alguma tragédia hoje? Ou será que o dólar subiu de novo? Bom...isso não seria mais novidade.
Em uma das páginas o destaque é para a entrevista dos “candidatos à presidência da república”...é, tem louco prá tudo. Ou seríamos nós os loucos de votar nestas pessoas? Mas que opção...decidir pelo “menos pior” mais uma vez e sofrer com isso por mais quatro anos...até que venha a próxima eleição onde novamente não teremos em quem votar.
Opa...fotos novas daquela deusa da novela...um pensamento rápido me lembra que minha mulher pode me flagrar vendo fotos na internet....um pensamento rápido mesmo pois agora estou separado. A única palavra que me lembro é “dane-se”.
Duas fotos depois me vem o pensamento de casar de novo....acho que, para combinar com o computador, só casando com uma secretária eletrônica. Acho que ela não vai reclamar...
Enquanto abro um papel de parede da minha musa vejo o quanto uma mulher é capaz de fazer falta.
Me lembro do chat...nossa, pode rolar até uma boa conversa...
Vamos ver....qual o apelido de hoje?
“GARANHAO”...não...
“SOLTEIRO SEDUTOR”...nossa...
....
Uma pasta do serviço de dá uma idéia...
“JP”.
Finalmente...nossa como tem gente hoje aqui...tento uma primeira investida geral na sala...”E aí pessoal?”.... um minuto depois me ligo que ninguém leu o que escrevi.
Mais uma investida afinal, a propaganda é a alma do negócio...rio sozinho das minhas besteiras enquanto mando um “Alô gente!”...

Opa uma resposta....”Oi JP!”
Nunca rendeu tão rápido...deve ser homem....deixa prá lá.
Enquanto leio uma discussão sobre times de futebol um alerta na tela me avisa de uma mensagem privada.
Não me animo muito pois normalmente usam isso prá propaganda....como se já não bastassem 50 e-mails por dia em minha caixa postal, de pessoas que não conheço querendo me vender alguma coisa.... me pergunto se a venda de cosméticos de porta em porta também começou assim...
Bom, só não acerto na loteria...uma propaganda de “pães de queijo á venda em determinado site”....aff...tem gente que não se manca.

O copo de uísque chega ao fim...”não me abandone você também”...eu penso enquanto pego a garrafa no bar e a arrasto até o escritório.

Já na metade do segundo copo eu começo a escrever pensamentos e mensagens de paz e alegria no chat público. “Agora alguém vai prestar atenção em mim...”....já na terceira mensagem eu mudo um pouco o contexto de paz e alegria para desabafar sobre a falta de respeito entre as pessoas no chat....e sobre como o chat poderia ser melhor se as pessoas deixassem a vergonha para trás e realmente converassem sobre suas vidas....eis o “psicólogo virtual”...

Algumas pessoas começam a me chamar para conversas privadas....parece que alguém gostou do que escrevi...dentre algumas mulheres seleciono alguns apelidos mais femininos, discartando os duvidosos e um homem que queria conversar comigo de qualquer jeito...acho que exagerei nas mensagens....

“Clara” se apresenta e conversamos sobre nossas vidas...não consigo deixar de ser sincero....enquanto trocamos idéias sobre como somos infelizes no que fazemos e como nos tratamos, converso em paralelo com “Morgana”...uma mulher que se mostra mais decidida e com uma vida bastante parecida com a minha....ela também é separada, e se parece angustiada com uma vontade muito grande de voltar para o antigo marido.

Me atrapalho um pouco mantendo um diálogo mais lógico com as duas mulheres que, assim como eu, passam a noite de sexta-feira trocando os bares e as saídas com os amigos por um bate papo em um computador.

Me enganei...a Clara se despede e diz ter um encontro com uns amigos para jogar conversa fora em um barzinho agitado do centro de Curitiba....me despeço e digo que gostaria de encontrá-la mais vezes no chat....se isso é verdade só vou saber quando encontrá-la de novo, se isso vier a acontecer...

Enquanto acendo um charuto e encho novamente o copo de uísque, Morgana me fala de como era bom seu casamento apesar de ocorrerem algums problemas que levaram á separação. Tendo mudar um pouco o rumo da conversa dizendo que é falta de tempo ela se lamentar por um relacionamento não ter dado certo e passar para outra. E assim a conversa segue por mais um copo de uísque, quando ela se despede e diz que vai dormir....eu me despeço e também desligo o computador.

Na manhã seguinte me ligo que dormi com a roupa do corpo...”um banho vai me fazer bem”, penso. No decorrer do banho me lembro da conversa com a Morgana e de como isso me fez bem...bem demais até. O pensamento se trava em minha mente enquanto o dia passa...não me concentro no almoço nem no futebol na TV no final da tarde...”pô, essa mulher mexeu comigo...” termina a novela das oito e me coloco em frente ao computador, com minha caixa de charutos e minha garrafa de uísque a postos...hoje eu tenho que encontrar novamente esta mulher.

Após a primeira meia-hora nada acontece....paro de procurar e fico na mesma sala em que nos encontramos na noite anterior. Só aí eu me dou conta que, junto com o desânimo por não tê-la encontrado eu sinto sua falta na tela do computador. Rio sozinho pensando que não tenho mais idade para esses romances bobos...

Quando estou saindo da sala ela me chama....o nome dela piscando no canto da tela me faz tremer...após uma saudação calorosa demais para um segundo encontro voltamos a conversar banalidades...é noite de sábado e não nos preocupamos com horários....

O gelo no uísque já destruiu o teor alcoólico dos 12 anos em que esteve guardado...o charuto queimou sozinho no cinzeiro...é, o papo está realmente agradável. Minha cara de pau já está a mil, quando começo a puxar o papo para algo mais picante...ela parece topar e não desvia o assunto...fala que o marido era bom da cama. Aff....e eu quero saber disso? Descaradamente pergunto como ela é na cama...ela me conta detalhes mais sórdidos e me deixa louco....”é agora”, penso sozinho.

Agora é meia-noite e meia e proponho um encontro. Ela parece receosa no princípio, mas nada que um pouco de insistência não quebre...marcamos de nos encontrar em um barzinho agitado perto do centro da cidade, dali a uma hora. Ela topa...definimos nossas roupas para nos encontrarmos em meio á multidão e nos despedimos com um “até breve...”

Bom a próxima hora não preciso nem comentar....um bom banho para tirar o cheiro do charuto e o bafo de uísque....o sono já era. Coloco a roupa que combinamos, uma boa dose do meu perfume e estou pronto, a caminho do barzinho.

Faltam 5 minutos para a uma hora e já estou na frente do barzinho....meu coração parece o de um adolescente. Um pensamento de ir embora me passa quando vejo minha ex-esposa, dobrando a esquina, e entrando no barzinho...no mesmo barzinho... Olho de relance para dentro do bar e a vejo sentando em uma mesa mais afastada. Não pode ser....é brincadeira só pode ser.

Dentro do bar nenhuma mulher bate com a descrição que ela me passou....pera aí...minha ex-mulher bate com o mesmo vestido que o combinado....meu deus...a bolsa e o sapato também...opa. Ela quase me viu...e agora?

Pera aí....minha ex não gosta de computadores, aliás, tem ódio daquela “máquina infernal”, como ela chama. Nunca viu uma sala de chat na vida nem muito menos pegou em um mouse...o que eu estou pensando?

Uma hora em ponto...e ela não chega...onde está a Morgana?
Crio coragem e entro no barzinho....minha ex me vê entrando e fica rubra de vergonha....”é, eu também não esperava”, penso eu. Me sento em uma mesa do outro lado do salão e aguardo. O garçon me pergunta o que vou querer e digo que vou aguardar uma pessoa.
O tempo passa....uma e quinze da manhã...algumas espiadas em minha ex me mostram que ela está angustiada, como que aguardando alguém também. Será que ela tem um encontro também? Um amante seria um bom motivo para ela descontar no meu computador suas frustrações e transformariam meu computador em uma boa desculpa para uma separação.... Pera aí, não vou estragar esta noite me preocupando com uma mulher como minha ex...se bem que ela está linda...faz quase dois meses que não nos víamos....e ela continua a mesma.

Peço um uísque...vejo que ela pede um coquetel de frutas sem álcool....sua bebida preferida.

Uma e meia....meu deus eu caí que nem um pato em um romance da internet...nossa como sou infantil quando eu quero ser....reparo que minha ex não tira o olho de mim...”nossa o que aconteceu?” Ela me fita com os olhos ainda franze a testa para ver melhor...eu finjo que não vi e presto atenção em uma TV bastante antiga que está passando um filme do Elvis...

Ela se levanta e vem em minha direção...”ai, essa agora, não”...

- Oi Pedro.
- Oi Amanda. Mundo pequeno...
- É... - ela responde, perguntando - Posso me sentar?
Bom, a noite foi pro brejo mesmo...eu digo “senta aí.”
Conversamos como vai a vida quando reparo que ela está me chamando de JP...eu olho para ela e pergunto....”Morgana?” Ela não responde e começa a rir como uma criança....eu não me agüento e rio muito também.

Conversamos pela primeira vez sem brigar em muito tempo....pergunto sobre o interesse dela em computadores e ela me diz que fez um cursinho e aprendeu sobre o básico da micro-informática e sobre a internet...e que gostou muito do que aprendeu.
Conversamos por mais de uma hora....e sendo meio tarde, a chamo para dormir em nossa antiga casa....ela tem um bom quarto de hóspedes e não seria um problema.

Para minha surpresa ela topa....
E para minha maior surpresa já entramos em casa nos agarrando...trancar a porta é uma dificuldade com ela arrancando minha jaqueta e arrebentando cada botão da minha camisa...os beijos são os mais ardentes de todo o nosso período juntos.... Uma trilha de roupas segue pela casa até a cama de casal que ainda ficou em nosso quarto, dando início a melhor noite de nossos vidas...

Nos dias seguintes tudo acontece como inesperado....ela se muda novamente para a nossa casa para tentarmos de novo nosso casamento...ela continua reclamando da bagunça e dos charutos....eu continuo desarrumando as coisas....pelo menos do micro ela não fala mais.

Ou melhor....o computador agora ficou pequeno para nós dois. Eu acesso o chat nas segundas, quartas e sextas e ela nas terças, quintas e sábados. Preciso me lembrar de comprar um novo computador...

 

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