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:. Crônicas


Natureza, esta incompreendida
por McLeod

Freqüento assiduamente o balneário de Itapoá, no litoral norte de Santa Catarina, a apenas sete anos. Até então, somente passeava por aquelas bandas quando ainda criança, naqueles tradicionais passeios familiares no automóvel da “grande família”, sob o sol escaldante e um calor quase insuportável em verdadeiros programas imperdíveis. Mas não posso negar que, além de se mostrar um passeio extremamente divertido e admirável, férias no litoral sem encher o carro de areia e o cheiro sufocante de bronzeador não poderia ser chamada realmente de “férias”.

Agora nos últimos anos minha vida tomou um rumo inesperado. Hoje tenho a oportunidade de passar as temporadas inteiras de férias no mesmo balneário onde apenas podia passear por algumas horas quando criança. Dessa forma, tenho aproveitado para conhecer cada vez mais o local em passeios muito mais calmos quando comparados com os de antigamente. E cada vez mais me permito emudecer e me deixar conquistar com as belezas que Itapoá tem a oferecer.
Isso sem comentar o meu interesse cada vez maior no fabuloso mundo da pesca, o que tornou a minha atenção sobre o balneário muito mais específica. Me vejo sempre procurando novos locais de pesca, conhecendo as espécies de peixes, freqüentando locais de comércio de pescados e iscas vivas, lojas de pesca, centros de pesca esportiva e outros tantos que fazem minha alegria em minhas merecidas férias.

Neste início do ano de 2005 não foi diferente. Por alguns dias, eu e meus parceiros nos dedicamos à pesca na Baía de São Francisco ou Baía da Babitonga, como também é chamada, onde é muito comum a pesca de rodada por robalos de belo porte, a pesca noturna com bóias luminosas na busca do violento peixe-espada, a pesca ancorada em torno da morada de badejos e garoupas, além de ser uma região com maré bastante calma para prática da pesca de praia, dentre outras. Ah, é claro, todas as modalidades de pesca sempre trazem surpresas na forma de peixes inesperados como guaiviras, salteiras, betaras, corvinas e pescadas, dentre outras espécies comuns em baías do litoral brasileiro.

Mas o que é bom dura pouco. Quando comecei a praticar a pesca embarcada com meus parceiros, há sete anos atrás, o número de exemplares capturados e soltos, das mais diferentes espécies, era muito grande. Embora sempre tenha sido bastante difícil a pesca de exemplares dentro da medida para abatimento e consumo, exemplares menores sempre davam as caras e se mostravam presentes. Isso mostrava claramente a abundância de peixes existentes no local.
É facilmente perceptível a diminuição na população de peixes na região a cada ano que passa. Nesta temporada flagramos diversas redes colocadas por pescadores amadores no interior da baía, o que viola leis de proteção ambiental, coloca em risco o tráfego de embarcações, a vida de pessoas que praticam esportes aquáticos – o que é comum na região – e, não menos importante, acabam com a fauna local matando milhares de indivíduos, por demais jovens, de dezenas de espécies marinhas.

Não posso afirmar como deveria funcionar a proteção ambiental nestes locais, até por não conhecer a fundo a situação financeira do estado de Santa Catarina, nem a disponibilidade de fiscais ambientais no estado. Mas posso claramente afirmar que estão ocorrendo coisas muito erradas ao longo do litoral catarinense, e que não vejo nada ser feito para cohibir tais atos.
Não é preciso ir muito longe para descobrirmos que este não é um problema apenas do estado de Santa Catarina. Esta representa uma situação comum ao longo de toda a costa brasileira. Nos fóruns em que participo é comum, em qualquer troca de informações entre pescadores, o assunto cair sobre a pesca predatória e o uso de redes de pesca em locais proibidos. Alguém sempre tem uma história pra contar sobre a má utilização deste equipamento em diversos locais onde a vida marinha em outros tempos foi abundante e hoje, não mais perdura.

É prática comum entre os pescadores dar um pequeno aceno com a mão quando barcos se cruzam, indicando um “tudo ok com vocês?” ou simplesmente por um gesto de amizade. No mar ninguém sobrevive sozinho e deve-se estar sempre pronto a ajudar ou pedir ajuda, se necessário. Este pensamento é uno entre todos os pescadores e dessa forma, um grande espírito de cooperativismo está sempre presente, além dos equipamentos de pesca e protetores solares.

Em um determinado dia bastante quente em minhas férias, lá estávamos mais uma vez, eu e meus fiéis parceiros, finalizando uma manhã de pesca praticamente improdutiva em um ponto bantante procurado por pescadores na Baía da Babitonga. Reclamávamos, uns com os outros, sobre a insólita situação que presenciamos, da quantidade de redes que observamos e de como as pessoas são capazes de destruir a natureza dessa forma tão infantil.

Determinado momento paramos e ficamos apenas á observar a baía. Ao longe, uma bóia com uma bandeira negra chamou a atenção de todos. Logo localizamos a outra extremidade, esta mais próxima do canal de navegação.

A surpresa foi geral quando vimos as duas bóias serem puxadas para o fundo e logo retornarem á superfície, a alguns metros de onde estavam inicialmente. Continuamos a observar, incrédulos, o movimento das bóias contra a correnteza da vazante.
Nossa surpresa foi maior ainda quando observamos um par de asas de cerca de quatro metros na superfície da água, bem no meio da rede. Aquelas asas negras saíram da água e retornaram ao fundo, por duas vezes.

Continuamos a observar mas não tivemos mais sinal da fera que esbarrou naquela rede. Agora ríamos sozinhos, enquanto uma ponta da rede permanecia parada e a outra navegava, solta na maré, pois a rede com certeza não aguentou o tranco com aquele exemplar e se despedaçou, para alegria de todos que ali observavam.

Que bom seria se todas as histórias de maltrato para com o nosso litoral acabassem dessa forma. Com a própria natureza se vingando da ganância dos homens.

 


 




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