A lenda do Robalo Anil
Por McLeod
Conta
o peixe-rei, parente do peixe-porco, amigado próximo
do peixe-palhaço, vizinho da anêmona da segunda
pedra depois da corrente sul que nada a mil. A história
do Robalo Anil.
Lá
pelas tantas, se passavam muitos anos e a pomposidade
se fazia maior do que a linha negra que percorre sob suas
escamas. Esse era o tal do Robalo Anil de que tanto se
ouvia falar nas profundezas geladas da costa do sul.
Era
grande. Muito grande perto de seus semelhantes no cardume
que percorria o Atlântico á procura de águas
mais quentes. Semelhantes? Só se for na espécie,
pois a cor era única. Anil com o céu sobre
as águas onde vivemos.
Ás vezes, anil.
Outras vezes, era prata-azulado.
Outras vezes ainda apresentava um tom de cor que se torna
difícil distingüir se ele tens escamas ou
uma armadura pesada cintilante.
Apesar do brilho e das mil cores, a linha negra inconfundível
percorre seu corpo, da cabeça á cauda sem
interrupções, exceto pelo brilho do sol
em suas escamas.
A
cabeça é de um exemplar adulto, típico
macho dominante da espécie. Possui a beleza do
robalo, porém extremamente sério e comedido.
Cauteloso. Defensivo. Uma marca do tempo lhe deixou uma
ferida que nunca cicatrizou nas perfeições
da estrutura cartilaginosa de sua bocarra.
A
cauda, imensa. Nadadeira perfeita, se move como um véu
de prata que o envolve com agilidade, força e graciosidade
em seu balé, enquanto nada como um Rei entre seus
súditos, seguindo o caminho das correntes quentes.
O
que se sabe são lendas. histórias contadas
de cação pai pra cação filho
nas noites antes de dormir. Uns dizem que foi durante
o dia. Outros, descrevem a cena sob a mais fria noite
cobrindo todo o palco no qual se transformou o imenso
mar azul.
Era
um momento comum em meio ao cardume. Nadando a muitos
dias. Comida excassa, porém ele se defende muito
bem, sendo o maior e mais forte exemplar do grupo.
Já chegando em águas quentes, o silêncio
é quebrado por ondas na superfície, que
carregam seus vergalhões em direção
á praia. Chega a ser difícil parar no lugar.
As águas quentes normalmente se movem com muita
força e ele está acostumado com o ritual.
Não
foi por fome. Nem por curiosidade pois ele era um predador
e sabia do que se tratava. Talvez para pura defesa da
sua existência. Enfim, não se sabe.
Estava
ali, parado, o alimento que lhe renderia o sustento dos
próximos dias. Uma olhada mais clara desvenda um
camarão grande. Ali, parado, distraído.
Outros robalos do cardume também vêem e ameaçam
se aproximar.
Contam que uma única investida foi necessária
para que o Robalo Anil se fizesse sumir em uma nuvem de
areia e poeira , envolvendo tudo á sua volta inclusive
o camarão incauto. Aí que a nossa história
começa.
Algo
estava errado. Quem presenciou a cena viu o impossível.
Ninguém soube dizer ao certo o que ocorreu.
O Robalo Anil fazia força para nadar em direção
ao cardume, mas de nada adiantava. Um puxão mais
forte quase arranca a frágil cartilagem de sua
boca. Em um ato de desafio o Robalo Anil consegue avançar
nadando rápido e fortemente em direção
ao cardume e some na segurança entre seus semelhantes.
Outros pequenos robalos também lutavam com o mar,
inutilmente, tentando se manter com o cardume, mas eram
puxados sumindo na imensidão azul. Um a um os robalos
eram arrastados do meio do cardume para o vazio longínquo
e frio.
Quando
todos achavam que tudo tinha terminado, um nado brusco
retira do meio do cardume o Robalo Anil, mais furioso
do que nunca, brigando contra as águas para se
manter no lugar. Um nado exaustivo, forte, com avanços
e recuos distintos. Um nado para o alto, o fazendo sumir
na superfície das águas e logo cair novamente,
com uma expressão de fúria que aumentava
a cada esforço. O cardume se dispersa, assustado.
Todos se lembram de ver o Robalo Anil lutar mais uma vez
antes de sumir na distância que o mar permite que
vejamos.
O
Robalo Anil não mais foi visto nas águas
quentes da corrente sul. No cardume sua presença
é sempre lembrada com receio, pois se o forte e
valente Robalo Anil não pôde contra as águas,
que chances nós teremos?
Alguns não acreditam que o Robalo Anil tenha existido.
Outros dizem que sim, que a história é real
e as águas realmente o levaram para sempre.
Ao longo dos anos nenhum outro robalo anil foi avistado
nas águas quentes da corrente sul.
Pratique
o pesque e solte.
Pratique a preservação das espécies.
Pratique a vida.
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