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:. Crônicas


Pescaria de inverno
Por McLeod

E chegou mais um inverno.
Decididamente, chegou.
Uma esperança vã ainda perdurava antes deste final de semana que passou.

Imerso em um gélido véu de brancas nuvens o dia amanhecera. O sol mal atravessava sua “londrina” penumbra, que em breve sumiria ante olhos vistos dando lugar a um céu imensamente azul e infinito, acompanhado de um revigorante sol de inverno.
E, lá estava um pescador. Filho único desta jornada pois, como dizem as generalizadas más línguas, “no frio não se pega peixe”. E, como a grande maioria das pessoas acredita até no que não vê, essas simples palavras são suficientes para desistimular toda e qualquer vontade de acordar cedo e dedicar um dia ao esporte da pesca.

Por isso, hoje ele é único. E, acima de tudo, não crê em contos populares ou em afirmações infundadas de quem não é especialista na arte da pesca.

Quando o sol aparece as linhas já estão armadas. Todo o fundamental equipamento de batalha foi trazido. Afinal, “uma pescaria na lingüiça não faz mal á ninguém”, pensa.

Juntamente com iscas mau cheirosas e miúdos de frango, ele não deixa nunca de carregar seu equipamento de iscas artificiais. Sua imensa coleção de iscas de superfície, de profundidade, de meia água... apenas as selecionadas hoje o acompanham. Afinal, seria necessária uma grande mala para carregar todo o conjunto, resultado de anos de aquisições e cuidados.
Sua carretilha, comprada em suaves prestações, hoje “o deixará orgulhoso”, pensa enquanto ata um pequeno snap na linha recém comprada e enrolada. Em pouquíssimo tempo nosso amigo já está dado voltas em torno do grande lago, que hoje é só dele, dando suas pinchadas e esperando o primeiro bote.

A manhã passa e um mísero ataque á sua isca artificial marcou este início de dia de pescaria. O sol escaldante o obriga a apelar para um boné mais expesso e o vento frio faz sua parte, o lembrando de vestir sua jaqueta mais pesada.

Uma pequena fogueira o auxilia a esquentar seu almoço. Preparado cedinho pela esposa, ele agora se delicia lembrando do toque de carinho sempre utilizado por sua amada em tudo o que lhe é dirigido. A lembrança o renova, e o enche novamente de esperanças de voltar para casa com um belo peixe para o jantar.

Um procedimento rápido de troca de iscas naturais. De lado fica a vara de bait e agora ele monta rapidamente seu conjunto de fly #4 e suas moscas secas.

Minutos após, quem observa ao longe se coloca em uma situação na qual é impossível não parar e admirar. A cena é grandiosa, digna de uma das mais belas práticas da pesca com iscas artificiais desenvolvida até então. A linha amarela serpenteia no ar por algumas vezes ao comando de um braço firme, até repousar calmamente na lisa superfície do cristalino lago. E o balé da formosa linha dura por muitos e muitos minutos, cada momento em um novo conjunto de movimentos que culminam no elegante repousar da linha sobre o espelho d’água.

Algumas batidas na superfície identificam algum movimento, que após mais alguns arremessos resultam no primeiro exemplar do dia: um lambari de rabo amarelo de oito centímetros, que logo vai para o samburá e este amarrado na beira do lago. “É apenas o primeiro”, ele pensa, sorridente.

A tarde é marcada ainda por alguns pequenos beliscos em suas iscas naturais, mas que não resultam em nenhum outro peixe. Poucas batidas. Poucas beliscadas.

Mas o frio penetra em sua pele com o passar das horas, minando sua confiança e lhe mostrando que a natureza sabe ser forte quando em sua época.

Sem pressa nenhuma, agora ele recolhe seu material. Sua carretilha, volta para a caixa original. Suas varas, devidamente desmontadas e limpas completam a organização, juntamente com suas caixas de pesca.

O que sobrou das iscas naturais vira alimento para os peixes que durante o dia não mostraram sua face.

“E o lambari?” ele pensa ao voltar seus olhos para o samburá. Ele o recolhe e o lambari ainda pula em seu interior, como um marco de que ele não passou o dia sozinho. O pescador se permite um sorriso enquanto observa o lambari voltar a nadar por entre seus dedos para a liberdade, sumindo na profundidade das águas escuras.

Alguns minutos de despedida são necessários, em pleno entardecer, diante da bela paisagem do vapor da água sobre a superfície do calmo lago. Ele observa o lago, coberto por um manto de vapor, este enriquecido com os raios amarelos do sol, com uma plena sensação de felicidade, tanto pelo contato com a natureza como pelo presente recebido por tão belo fim de tarde. E em um misto de sensações uma pequena fagulha de frustração o fere, o certificando de que o inverno chegou e de que a estação irá demorar ainda a passar.

Enquanto caminha de volta ao seu lar, ele sorri lembrando da esposa que o espera e do beijo com o qual será recebido. Alheio ao seu redor o pescador traça seu caminho, enquanto é observado ao longe por um caboclo andarilho, desdes sábios conhecedores da região. “É, no frio não se pega peixe!” pensa o caboclo, sorrindo com o canto dos velhos lábios e seguindo seu caminho.


 

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